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sábado, 24 de outubro de 2009

090. Ainda a solidão...

Lacrimae Rerum

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!

Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem por que vaga desolado
E em vão busca a certeza, que o conforte?

Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das cousas tenebrosas...

De Antero de Quintal

Fonte: Rua da Poesia

terça-feira, 15 de setembro de 2009

051.É a vida...

Por motivos que fugiram ao meu controle, fiquei um longo tempo sem realizar postagens. Peço desculpas às todos os leitores (se é que há algum).

Para me redimir, escrevo uma historinha...

Olhava ao redor como se procurasse entre os rostos desatentos alguma esperança. Sentia o suor molhar o rosto, as mãos tremiam como se quisessem ignorar seus comandos, a respiração ficava curta e até difícil. Ataque de pânico foi o que leu na internet. Ansiedade foi o que viu num folheto em algum consultório médico. A verdade é que ele sabia muito bem que todas as sensações tinham apenas um motivo: sua incapacidade em aceitar uma igreja tão diferente daquela que conseguia enxergar na Bíblia.

Nas palavras do pastor ele não encontrava alento, de fato, nem sequer concordava com o que o pastor dizia. Considerava o pastor um dos principais responsáveis pelo estado frio da igreja. Durante os cultos, sentia que era o momento de se levantar e gritar a plenos pulmões o quanto todas as músicas e coreografias eram mecânicas e as mensagens secas e ocas. Mas não o fazia. Ele era apenas um jovem e seus 21 anos não davam forças às suas palavras como ao seu corpo. Não era bacharel em Teologia, cursava uma faculdade comum. Desprovido de qualquer chamado divino suas palavras pareceriam ainda mais fracas para a congregação. Esta buscava cada vez mais os feitos sobrenaturais e apenas o “mover” do espírito importava. A tradição era desprezada, característica dos tempos pós-modernos em que se encontrava. Desprezavam também os mais necessitados, apenas a elite da igreja gozava de direitos. Os grupos menores não importavam. Aos olhos da comunidade, a elite tinha o poder dado diretamente por Deus e tudo o que fazia era de acordo com a vontade divina.

Ele, pelo contrário, cogitava constantemente se havia uma ordem divinal para falar o que sentia e por fim a toda hipocrisia daquela elite. Lembrava os profetas bíblicos, Amós, Oséias, Isaías e desejava ser como eles. Falar contra as autoridades corruptas e frias, lembrar a aliança do Senhor ao povo, voltar às origens para buscar o sentido do presente e, assim, notar o amor ao próximo de volta aos corações.

Quando não agüentava mais e sentia que o momento de rebelar-se chegara, pensava em sua família, tão tradicional na igreja, o que eles pensariam? E a vergonha para seus pais? E o que as demais pessoas pensariam dele? Por levantar no meio de uma mensagem e bradar contra a direção da igreja, na certa o chamariam de louco e não de profeta. Não que ele quisesse este título, mas também não queria ser chamado de louco. Pensava no que perderia caso se levantasse contra a igreja. Perderia o apoio da família, perderia as amizades, perderia aquela igreja como local de reunião. Embora não concordasse com o que acontecia semanalmente ali, refletia que não estar ali poderia ser pior. Foi neste momento que percebeu que não era a experiência religiosa com a divindade que tinha mais importância para ele. Eram os costumes, eram as tradições que ele defendia, era a acomodação do lugar que o mantinha ainda ali.

Chorou. Pensou que tudo o que sentia não era forte o suficiente para tirá-lo da acomodação daquela comunidade. Se sublevar àquela igreja era ter a certeza de que havia falado o que precisava para sentir-se em paz. Mas isso indicava que agora ele não teria mais lugar para ficar. Ser excluído do meio daquele povo era ser jogado nu na escuridão. Não haveria uma luz fraca seguida por todos. Seria necessário buscar, sozinho, alguma chama e isso significava andar no escuro e no frio da solidão por um tempo que ele não sabia qual. O medo do desconhecido o atingiu e ele sentiu um frio no estômago.

No domingo seguinte, no meio da mensagem ele levantou-se.

Foi ao banheiro, molhou o rosto e respirou fundo. Olhou-se no espelho, olhou para o alto e disse:

― Senhor, afasta estes pensamentos da minha mente.

Voltou ao santuário e sentou-se, percebeu dois ou três olhares reprovadores por ter saído no meio do sermão, abaixou a cabeça e continuou fingindo prestar atenção no que o pastor dizia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

29. Tristeza e solidão

Fernando Pessoa, ainda não citado aqui, traz a beleza a este espaço:

Quando estou só reconheço

"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."

Fonte: Rua da Poesia

quarta-feira, 22 de julho de 2009

010. Da tristeza e solidão

Não sei qual a razão das festas não me agradarem. Gosto das expressões mais tristes e da solidão.

Não sou emo.

Sou apenas taciturno. Não sou o único. Um tal de Camões também.

Onde acharei lugar tão apartado

"Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente."


Fonte: Rua da Poesia.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

002. Por que esse nome para o blog?

O nome do blog foi retirado do primeiro texto que escrevi quando minha consciência foi desperta.

Participei de um curso na FABAT (Faculdade Batista do Rio de Janeiro) promovido pelo CADS (Centro Acadêmico Doutor Shepard) mantido pelo STBSB (Seminário Batista do Sul do Brasil). Quantas siglas! Coisa de batista.

O curso foi sobre Princípios Batistas. Ministrado pelo professor Osvaldo Luiz Ribeiro (O bicho da goiaba), esse curso teve apenas 04 encontros realizados às quartas-feiras. Infelizmente pelo pouquíssimo tempo disponível o prof. Osvaldo teve de se limitar a uma leitura e releitura de alguns dos pontos considerados por ele como os mais importantes do livro "Pacto e Comunhão - Documentos Batistas".

O ponto nevrálgico foi a leitura da seguinte frase: "Nem a maioria, nem a minoria, tampouco a unanimidade, reflete necessariamente a vontade divina.".

Depois da leitura e releitura desta frase o prof.Osvaldo solicitou que os alunos escrevessem um texto com o título "E agora?". Apenas dois alunos dos 30 presentes leram seus textos. O meu está abaixo. Se o leitor quiser conferir as ideias da aluna que escreveu o outro texto (recomendo, apesar dela não recomendar o meu rsrsrs) é só clicar aqui.
Se o leitor quiser as s considerações do prof.Osvaldo (recomendo) é só clicar aqui.


"E agora?Durante vinte e seis anos fui adestrado a enxergar numa direção e a ter a certeza de que estava no centro da vontade de Deus. Mas se não há como ter certeza de onde é o centro da vontade divina, então, estou perdido, pois de fato não sei onde estou. E, ou estou preso em algum lugar cuja saída não enxergo, ou estou liberto do local que considerava ser o ideal e, portanto, posso procurar o local que me trará conforto. Mas como procurar? Antes era só seguir a maioria, coisa de que nunca fui adepto. A minoria sempre foi o voto daqueles que não entenderam a vontade de Deus, então nunca a segui. Como não me lembro de ter visto a unanimidade numa igreja, não há quem seguir. Então estou só também. Só, perdido e em dúvida se preso ou liberto. Agora é um recomeçar no escuro e no silêncio para tentar encontrar uma luz ou um som".

Então é aqui?

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