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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

089. Do Apocalipse II

Recebi o seguinte comentário na postagem 34.Do Apocalipse.

Anônimo disse...

então acha q tudo existe por acaso?se acredita no deus q te deu a vida,deve acreditar no da biblia.tudo esta acontecendo e poucos estão se importando e é assim q poucos se salvarão!!!

15 de Outubro de 2009 15:26

Muito obrigado pelo seu comentário.

Gostaria de saber se és homem ou mulher, pois assim saberia como tratá-lo ou tratá-la, se por senhor ou senhora, mas tudo bem. Usarei o masculino, se estiver errado, peço que me desculpes.

Reli a minha postagem. Procurei em todo o texto alguma parte em que tivesse escrito que a crença no acaso seja a razão da existência de tudo que se dá no mundo e do mundo em si.

Não encontrei.

Em momento algum do texto escrito há sequer uma menção ao acaso.

Apresentei as histórias e crenças antigas que levaram ao surgimento da crença atual no apocalipse como evento final da existência humana no planeta.

Não toquei no “Apocalipse” enquanto livro bíblico. Só fiz uma referência e até muito comedida, mas confesso que colocar o título com letra maiúscula foi uma provocação que passou despercebida.

Eu li o livro destacado na postagem porque o medo que me tomava diante do cataclismo iminente pintado nas igrejas era forte. Ler o livro foi um alívio e eu não o li buscando encontrar alívio. Tive receio de comprá-lo e ler nas páginas apenas a confirmação de que “O FIM ESTÁ PRÓXIMO!”.

Li para encontrar respostas depois de saber que um dos povos antigos, os persas, também esperavam o fim de tudo com uma batalha sem precedentes na história do universo.

Acompanhe o meu raciocínio.

Um cristão crê que num momento que ninguém sabe qual o fim chegará com a volta de Jesus à Terra. Ele virá para julgar todos os seres. Depois do julgamento, alguns estarão salvos (poucos segundo tua afirmação) e alguns (muitos seguindo a lógica do teu raciocínio) estarão perdidos. O inimigo principal de Deus será enfrentado pelas hostes celestiais que o derrotarão e o lançarão no lago de fogo. Após a derrota do inimigo, os salvos viverão para sempre em paz num mundo perfeito (Céu).

O que temos nas linhas acima?

Um homem crê que em algum momento o ser supremo virá à Terra e julgará os homens. Alguns estarão salvos e outros estarão perdidos. O ser supremo extirpará o mal e os que eram maus antes de sua vinda. O mal que existe será erradicado e os bons viverão numa terra perfeita onde o mal já não existe.

Percebe como as histórias são semelhantes? É claro que são. É a esperança do homem comum escrita na parede, na neve, no pergaminho, no papiro, no papel, na tela do computador...

É o homem que vê o mal a todo o momento e pensa que a situação deve ter um fim, pois não pode ser que aquele que faz o bem seja destruído da mesma forma que aquele que faz o mal.

A crença no apocalipse é o discurso do homem que não suporta mais a injustiça e dor que o maltrata e que assola o mundo. Este homem (não que haja um homem a quem responsabilizar, pois não é assim que os mitos são construídos, mas utilizo a figura humana que representa, ainda que insuficientemente, a coletividade) não tem força para lutar contra aquele que tira os limites de sua terra (“Não mudes o limite do teu próximo, que estabeleceram os antigos na tua herança, que receberás na terra que te dá o SENHOR teu Deus para a possuíres marco da sua terra.” Deuteronômio 19.14), aquele que mata (“Não matarás”. Êxodo 20.13), aquele que adultera (“Não adulterarás”. Êxodo 20.14), aquele que furta (“Não furtarás.” Êxodo 20.15) e assim por diante.

A arma de quem não tem força é a voz, ou será que o caro leitor (agora sei que há ao menos três, embora que talvez não sejam mais...) acredita que tudo foi soprado? Que não há elemento humano quando o texto se refere à vida humana?

Afirmar que a crença no apocalipse é voz de quem não tem força não elimina o possível caráter de revelação das crenças. Alguém pode afirmar que crê em algo por que uma divindade a revelou uma informação que aos demais mortais não foi revelada. Sem problemas. Só não queira que eu acredite no que este alguém dirá como sendo a verdade das verdades. Se a divindade revelou para X, por que não revela para Y? E este Y sou eu.

“Mas a divindade revelou a um homem para que este revelasse aos outros”. Sem problemas. No caso da bíblia foi o autor do Apocalipse, certo? Não. O autor do “Apocalipse” se serve das mesmas crenças persas. Então eu pergunto (já estava com saudade de escrever isto), a divindade revelou a quem? Aos persas, aos judeus ou aos cristãos judeus/gentios? Ou a divindade revelou a todos e cada um fez a sua interpretação da revelação?

Se você acredita que a divindade revelou aos persas, então jogues fora o cristianismo e seja zoroastriano.

Se você acredita que a divindade revelou aos judeus, então jogues fora o cristianismo e seja judeu, mas vá buscar o surgimento da leitura apocalíptica judaica na Mesopotâmia e, provavelmente você vai chegar ao Zoroastrismo.

Se você acredita que a divindade revelou aos cristãos judeus/gentios então seja cristão, mas vá buscar o surgimento da leitura apocalíptica cristã e provavelmente você vai chegar ao judaísmo que te levará à Mesopotâmia e aqui está você novamente no Zoroastrismo.

Se você acredita que a divindade revelou a todos, mas cada um fez a sua interpretação da revelação, então jogue tudo fora e depois pegue tudo e seja o que quiser, pois se você está escolhendo a interpretação que lhe agrada, então você não está escolhendo revelação enquanto processo metafísico, mas sim palavras humanas, elemento humano.

Eu fiz a minha escolha por enquanto, mas se eu me dei ao trabalho de pesquisar tudo isso, que não interessa a ninguém, então talvez eu me importe...

Agora, se o caro leitor vai utilizar a Bíblia para rebater meu texto, ainda que de fato não tenha utilizado, mas apenas mencionado, então é com a Bíblia que conversaremos. O que me diz destas passagens bíblicas?

"Os olhos do homem sábio estão na sua cabeça, mas o louco anda em trevas; então também entendi eu que o mesmo lhes sucede a ambos”

“Assim eu disse no meu coração: Como acontece ao tolo, assim me sucederá a mim; por que então busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que também isto era vaidade”.

“Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!”. Eclesiastes 02.14,15,16.

“Pois, quem sabe o que é bom nesta vida para o homem, por todos os dias da sua vida de vaidade, os quais gasta como sombra? Quem declarará ao homem o que será depois dele debaixo do sol?” Eclesiastes 06.12

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”. Eclesiastes 09.10

Bíblia por Bíblia.

Diga-me, quem está certo? O autor de Eclesiastes ou o autor do Apocalipse?

Não escrevo estas coisas para causar desespero em alguém. Calma! Se você se sentiu ofendido, peço perdão. Mantenha a calma, eu posso estar completamente errado em tudo o que escrevi. Não digo que tenho a verdade em minhas mãos.

Com relação à frase “se acredita no deus q te deu a vida,deve acreditar no da biblia.”, bem, não sei se entendi a tua intenção. É um questionamento da minha crença na divindade? É um questionamento acerca de qual a divindade em que eu creio? É um questionamento ou uma ordem? Até que me respondas, não posso contrapor esta questão. E isso não é uma fuga, não fujo. Se me responderes, mesmo como anônimo (sem problema algum) eu te oferecerei a minha réplica.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

34. Do Apocalipse

Estou nas últimas páginas do maravilhoso livro “Cosmos, Caos e o mundo que virá – As origens das crenças no Apocalipse” de Norman Cohn, tradução de Claudio Marcondes, pela Companhia das Letras.

Cohn apresenta os mitos mais conhecidos entre as regiões do Antigo Oriente Próximo, a saber, Egito, Mesopotâmia, Índia Védica e do Crisol Sírio-Palestino, com a apresentação e comparação entre O Exílio e o pós-exílio, Apocalipses judaicos, Ugarit, Zoroastrismo...

Como acontece todas as vezes que leio um livro do qual gosto, começo a sentir o desgosto de vê-lo findar-se em minhas mãos, e acredite o leitor (se é que há algum) que já interrompi leituras no último capítulo de um livro apenas para mantê-lo ainda vivo por mais algum tempo.

Não vou descontinuar a leitura deste. E não o farei porque habilmente, Cohn reservou para o final os capítulos que mais tocam aos cristãos: “O livro do Apocalipse” e “Judeus, zoroastrianos e cristãos”, esperto, muito esperto.

Mas não é apenas pela esperteza do autor que estes capítulos estão no final do livro. Se o leitor (agora do livro e não do blog) não possuir em sua bagagem as duzentas e poucas páginas anteriores, pode não aceitar a lógica do pensamento de Cohn.

O Apocalipse tal como está escrito na Bíblia, é descrito em várias igrejas como iminente. Os terrores dos monstros e das perseguições descritas no 27º livro do Novo Testamento são de assustar qualquer um e, eu era um deles. Sempre fiquei temeroso depois da exposição dos desafios que os cristãos enfrentariam quando o Anticristo surgisse e quando todos ao meu redor andariam com a marca da Besta. O que eu poderia fazer? É o cenário que sempre pintam para aprisionar e, existe melhor maneira de manter prisioneiros senão pelo medo? Sim, existe.

A melhor maneira de manter prisioneiros é através da falta de conhecimento. Não saber o que há atrás das muralhas é ainda pior do que saber e temer, pois como temer aquilo que não se conhece? Aqui entram os medos ocultos, infantis. Sabe quando se está numa sala escura e têm-se a certeza de que algo se moveu num canto? Nada se moveu. A imaginação que viaja e constrói figuras onde elas não existem.

Com o Apocalipse descrito na Bíblia é o mesmo. Não estou escrevendo que as palavras do último livro bíblico sejam apenas construções fantasiosas para influenciarem nossas mentes a imaginarem monstros que nos manterão sempre trancados em nossas igrejas.

Estou escrevendo que são aqueles que continuam unindo os pontos dos desenhos apocalípticos que tentam manter a todos aprisionados. Alguns fazem assim, pois como a criança que aprende a desenhar unindo os pontos numerados, apenas sabe fazer isso e não enxerga que pode construir desenhos diferentes.

Outros percebem que aqueles pontos apenas traziam um desenho que poderia ser melhorado ou piorado ou simplesmente feito diferente e, quase sempre, aumentam a “grande tribulação” e dizem que já chegou ou que chegará em breve ou que, quando vier, será muito mais sinistra do que as palavras bíblicas descrevem.

Entre tantos desenhos, tenho de agradecer ao prof. Dionísio Oliveira Soares por ter desconstruído alguns dos meus medos com relação ao Apocalipse. Não que ele tenha em algum momento feito algo que não fosse apresentar a matéria, mas agradeço-o por ter apresentado a matéria! Estou cada vez mais grato por não encobrirem a verdade, ou melhor, as possibilidades de verdade.

Enfim, participei de uma matéria na FABAT em “Tópicos Livres”, cujo conteúdo apresentado foi o livro de Daniel, presente no Antigo Testamento. O prof. Dionísio apresentou leituras comparadas em capítulos chaves e o contexto sócio-histórico da formação do livro e foi possível entender que o apocalipse desenhado em Daniel era muito diferente daquele que tantas vezes ouvi da boca dos “ministros do evangelho”.

Não vou arriscar apresentar o conteúdo das aulas ou do livro aqui, pois seriam necessárias diversas páginas e não sei se o leitor (se é que há algum) tem tamanha paciência.

Recomendo a leitura do livro de Norman Cohn e da comunicação do prof. Dionísio, “O livro de Daniel: Aspectos sócio-históricos de sua composição”, publicada na revista Atualidade Teológica, Revista do Departamento de Teologia da PUC - Rio Ano XII, n.29, maio a agosto/2008.

Dos medos que antes me apavoravam, hoje apenas sorrio.

Daqueles que antes incutiam o medo, hoje espero que falem comigo, quando, sem qualquer compaixão colocarei o dedo em suas caras e direi: “Falem. Falar e pregar lhes são permitidos, mas não é mais o menino apavorado que está aqui”.

Então é aqui?

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