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sábado, 20 de fevereiro de 2010

123. O queijo e os vermes

“Eu, Menego, pensava que a morte me livrasse dos meus pavores, que não amolasse mais ninguém, mas fez justamente o contrário, levando-me um filho que era capaz de me livrar de qualquer problema e preocupação; depois me levou a mulher, quer era quem cuidava de mim, e os filhos e filhas que me restaram me consideram louco, dizem que eu fui a ruína deles, e essas é a verdade, se eu tivesse morrido há quinze anos, eles estariam livres de problemas com este podre desgraçado.”. (Domenico Scandella, em carta enviada ao Santo Ofício em 22 de Janeiro de 1597. apud GINZBURG, 2008, p.167).

No livro “O queijo e os vermes” Carlo Ginzburg conta a história de Menocchio, um moleiro que viveu no norte da Itália, nascido em 1532 e falecido aproximadamente em 1601. Este homem simples de uma classe não apreciada pela maioria teve uma vida fantástica. Não fez grandes viagens ou grandes expedições. Não foi responsável por grandes descobertas e nem salvou pessoas com algum talento excepcional. Menocchio viveu a maior parte de sua vida em uma vila chamada Montereale, pequenina aldeia nas colinas de Friuli. Trabalhou como carpinteiro, marceneiro, pedreiro e “outras coisas”. Ali, escondido entre as montanhas e os trabalhos este homem incomum se atreveu a pensar e a dizer o que pensava e por tal audácia ele foi executado.

Ginzburg descobriu as páginas que narram a história do processo de Menocchio por acaso. Procurava informações acerca de uma seita de curandeiros e bruxos na Itália e se deparou com detalhadas páginas acerca de um processo inquisitório. Sua curiosidade o deteve e algum tempo depois retornou àquelas páginas. Muita coisa foi mantida. Era algo com certeza incomum. Um processo tão extenso deveria ter sido por demais importantes. Ginzburg estava certo.

Menocchio sabia ler e escrever. Isto já o diferenciava da maior parte dos habitantes locais. E lendo e escrevendo, embora não se saiba o que ele escrevia, Menocchio incomodou. Ele leu alguns livros. Segundo Ginzburg apenas 11 obras podem ser afirmadas como de conhecimento de Menocchio, pois são citadas nos processos. Apenas 11 obras em uma vida. Tão distante da realidade universitária de nossos dias. Mas não era um estudioso. Era um moleiro numa região de analfabetos.

Não se pode separar a vida nesta época da religião. Conquanto o Renascimento já fosse realidade e já inflamasse as mentes, a religião estava no ar. E mais ainda devido aos acontecimentos da Reforma Protestante tão recente e da invenção da imprensa. Estas duas forças revolucionárias são descritas como decisivas para que possibilitassem ao incomum Menocchio sua raridade, de fato, afirma-se que a:

imprensa lhe permitiu confrontar os livros com a tradição oral em que havia crescido e lhe forneceu as palavras para organizar o amontoado de ideias e fantasias que nele conviviam. A Reforma lhe deu audácia para comunicar o que pensava ao padre do vilarejo, conterrâneos, inquisidores... (GINZBURG, 2008, p 25).

A religião estava em toda parte. A Igreja Católica se fortalecera sobremaneira na Idade Média, mas os ritos pagãos continuaram a ocorrer no campo. O mundo encantado na vida das pessoas comuns se manteve com algumas mudanças mais de incorporação do que de separação entre crenças. A Reforma Protestante e o movimento de Contra Reforma foram choques dramáticos na vida cotidiana. O conhecimento do divino centrado apenas em uma instituição foi radical e irreparavelmente questionado. Não se deveria admirar que a religião, os dogmas, os conceitos hoje apenas assunto de estudiosos e eclesiásticos fossem assunto comum nas diversas conversas entre moleiros, taverneiros, carpinteiros e demais pessoas de uma vila qualquer.

Ainda que o assunto fosse comum a todos e que o discutissem, sem aprofundamento acadêmico é claro, Menocchio foi além. Em suas leituras Menocchio arriscou um pensamento livre. Tais pensamentos livres destoavam do que na época a Santa Igreja afirmava e Menocchio foi acusado.

O delator, sem qualquer significado pejorativo, mas apenas de ser aquele que denuncia, foi o pároco de Montereale, dom Odorico Vorai. Este foi instigado pelo padre dom Ottavio Montereale. Tal inimizade do clero é entendida facilmente devido à aversão de Menocchio que não reconhecia a autoridade dos religiosos, chegando a dizer que:

padres e frades, querem saber mais do que Deus; são como o demônio, querem passar por deuses na terra, saber tanto quanto Deus da mesma maneira que o demônio. Quem pensa que sabe muito é quem nada sabe. (GINZBURG, 2008, p.41-42).

Além desta questão, Menocchio expressava opiniões que contrariavam algumas das doutrinas firmadas como verdades absolutas, muitas delas, antes do Concílio de Trento. Suas explicações são tão arrebatadoras que transcrevemos algumas aqui:

Da Sagrada Escritura

“Acho que a Sagrada Escritura tenha sido dada por Deus, mas, em seguida, foi adaptada pelos homens. Bastariam só quatro palavras para a Sagrada Escritura, mas é como os livros de batalha, que vão crescendo.”.

“A respeito das coisas dos Evangelhos, acho que parte delas é verdadeira e, noutra parte, os evangelistas puseram coisas da cabeça deles, como se pode ver nas passagens onde um conta de um modo e outro de outro.”.

Das imagens

“Quanto às relíquias dos santos são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acha que são iguais aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas [...] Não se devem adorar as imagem, e sim Deus, só Deus, que fez os céu e a terra; vocês não vêem”, exclamou Menocchio para os juízes, “que Abraão jogou todos os ídolos e imagens no chão, e adorou só a Deus?”.

Da confissão

“Ir se confessar com padres ou frades é a mesma coisa que falar com uma árvore.”.

“Se esta árvore conhecesse a penitência, daria no mesmo; alguns homens procuram os padres por que não sabem que penitências devem ser feitas para seus pecados, esperando que os padres as ensinem, mas, se eles soubessem, não teriam necessidade de procurá-los.”.

Do Batismo

“Acho que quando nascemos, já estamos batizados, porque Deus, que abençoa todas as coisas, já nos batizou. O batismo é uma invenção dos padres, que começam a nos comer a alma antes do nascimentos e vão continuar comendo-a até depois da morte.”.

Da lei e dos mandamentos da Igreja

“Acho que a lei e os mandamentos da Igreja são só mercadorias e que se deve viver acima disso.”.

Do amor a Deus e ao próximo

“Acho que amar o próximo é um preceito mais importante do que amar a Deus.”.

“[...] por que eu li na Historia Del Giudicio que, quando chegar o dia do Juízo, Dirá a um anjo: ‘Você é mau, nunca fez o bem para mim’; e o anjo responder: “Senhor, nunca o vi para fazer-lhe o bem”. “Eu tinha fome, e não me deu o que comer, eu tinha sede e não em deu o que beber, estava nu e não me vestiu, quando estava na prisão, não vinha me visitar. ’ “E por isso eu achava que Deus fosse o próximo, porque disse ‘Eu era aquele pobre’”.

Da superioridade da Fé Cristã

“Senhor, eu penso que cada um acha que a sua fé seja a melhor, mas não se sabe qual é a melhor; mas, por que meu avô, meu pai e os meus são cristão, eu quero continuar cristão e acreditar que essa seja a melhor fé.”.

Jesus Cristo

“Minha dúvida é que [Cristo] [...] não tivesse sido Deus, mas um profeta qualquer, um homem de bem que Deus mandou pregar neste mundo...”

“Eu acredito que seja homem como nós, nascido de um homem e de uma mulher como nós, e que não tinha nada além do que recebera do homem e da mulher, mas é bem verdade que Deus mandara o Espírito Santo escolhê-lo como seu filho.”.

Deus

“Acredito que tenha acontecido com Deus o mesmo que acontece às coisas deste mundo, que vão da imperfeição à perfeição, como uma criança, por exemplo, que, enquanto está no ventre da mãe, não compreende, nem vive, mas logo que sai começa a viver e, à medida que cresce, começa a entender; assim Deus, que era imperfeito enquanto estava no caos, não compreendia nem vivia, mas depois, se expandindo nesse caos, começou a viver e a compreender.”.

Menocchio acreditava, pensava, achava e tinha dúvidas. É possível perceber que a mente do intrépido moleiro não tinha descanso. Aguçado pelas leituras que fazia Menocchio falava com seus conterrâneos. Um moleiro era uma figura depreciada pela sociedade da época como se pode perceber no canto popular toscano:

pela barba um moleiro segurava

e tinha um alemão por sob os pés

e um taverneiro e um magarfe presos:

lhe perguntei qual era o mais malvado

e ele me disse: “Atenta que te mostro.

Vê bem quem é que com as mãos rapina:

o moleiro que mói a alva farinha.

Vê bem quem é que com as mãos agarra:

o moleiro que mis a farinha alva.

Da quarta parte salta a alqueire inteiro:

o mais ladrão de todos é o moleiro.

Um moleiro que falava demais não devia ter mais consideração. Mesmo assim por várias vezes as testemunhas afirmam que Menocchio conversava com todos e que parecia amigo de todos, de fato, chegou a ocupar alguns cargos na aldeia, dos quais se destaca ter sido novamente cameraro (administrador) da igreja de Santa Maria de Montereale após o fim do primeiro processo.

Ginzburg conta a história de forma simples. É uma progressão sem muitas surpresas para os que sabem como a Inquisição agia. No entanto o que faltava de extraordinário nos trâmites inquisitórios sobejava na eloqüência e atrevimento de Menocchio. Suas respostas assombravam e se os responsáveis pelo processo não fossem sagazes de certo seriam tragados por suas palavras.

É uma história triste. Perturbadora. Não se pode evitar a simpatia pelo moleiro falastrão. Ainda mais devido à sede de saber e de compartilhar conhecimentos e dúvidas demonstradas por Menocchio ser uma característica da época atual. Os inúmeros sítios virtuais conhecidos como blogs são um exemplo. Milhões de pessoas desejando ser ouvidas. Renegando o silêncio. Expondo e, se expondo, ao mundo o que não pode mais ser contido.

Menocchio não podia ser abafado em sua aldeia. Sua mente fitava os Andes e ele falava. Tão incomodado por sua vontade voraz de expor ao mundo suas ideias não se reprimiu e desejou mais. Quis falar aos príncipes e ao papa e quando finalmente teve ouvintes capazes de debater se expôs ingenuamente apesar dos amigos terem pedido para que falasse pouco. Como? Como se calar diante de tal oportunidade? Quando um homem comum seria novamente ouvido pelos guardiões da doutrina? Calar não era uma opção e, assim como criança, Menocchio não soube calar-se.

Escreveu uma carta aos inquisidores antes da sentença. Belíssima carta. Obra de um espírito livre. Uma carta precisamente elaborada. Uma carta para ser solto, mas sem negar suas ações, convicções e dúvidas. Uma carta quase jocosa que ele teve a coragem de encerrar com um pedido de desculpas nada sincero. Escreveu “... não levem em conta minha falsidade e ignorância.”. Talvez tenha se rido ao engendrar essa frase, surpreendido pelo próprio pensamento, mas é só conjectura.

Foi condenado. Torturado. Preso.

Uma segunda carta, agora com o apoio de um advogado e do filho a quem se refere no parágrafo que abre este texto, Ziannuto, conseguiu mudar a sentença. Liberto, Menocchio foi obrigado a usar um hábito penitencial que o estigmatizava, prejudicando o sustento da família. O árduo tempo que ficou na “prisão escura” parecia ter mudado o espírito do moleiro. Permaneceu calado e cumpridor dos ditames da Santa Igreja. Anos se passaram até que novamente a alma inquieta o movesse. Quando novas denúncias foram feitas o incauto habitante de Montereale foi chamado para o que seria o início de um novo processo inquisitório.

Neste momento é possível perceber as terríveis conseqüências que o primeiro processo deixara. Menocchio estava diferente. Não era mais loquaz. Não pretendia ser destemido. Diante das hábeis perguntas do inquisidor manteve uma postura evasiva. Suas respostas foram curtas. É difícil acreditar que fosse o homem que há 15 anos trouxera rebuliço ao Santo Ofício.

Menocchio se limitava a dizer que tivera fantasias, fizera brincadeiras apenas e desmentia-se. Dizia que “os padres e frades, que estudaram, fizeram o Evangelho através da boca do Espírito Santo.” (GINZBURG, 2008, p. 161-162). Em alguns momentos Menocchio chegava a afirmar que não sabia o que dizer, de fato, disse: “Eu não sei o que eu disse; eu sou ignorante.”. Quanta diferença daquele outro homem!

Por fim, quando já não encontrava mais possibilidade de qualquer acordo apelou para a lenda dos três anéis claramente invocando a tolerância. Menocchio explicou a lenda da seguinte forma:

Um grande senhor declarou seu herdeiro aquele que tivesse um certo anel precioso; aproximando-se da morte, mandou fazer outros dois anéis parecidos com o primeiro e, como tinha três filhos, deu a cada um deles um anel. Cada um deles julgava ser o herdeiro e ter o verdadeiro anel, mas dada a semelhança, não se podia saber ao certo. Do mesmo modo, Deus possui vários filhos que ama, isto é, os cristãos, os turcos e os judeus, e a todos deu a vontade de viver dentro da própria lei e não se sabe qual seja a melhor. Mas eu disse que, tendo nascido cristão, quero continuar cristão e, se tivesse nascido turco, ia querer viver como turco. (GINZBURG, 2008, p.92).

É impressionante como mesmo sob tantos riscos a centelha ainda ardia dentro de Menocchio. O desejo de falar e de ser ouvido permanecia. Encoberto por aflições passadas e memórias dolorosas estava o moleiro que desejava ser ouvido.

Foi um dos últimos gritos de Menocchio. Aí veio a segunda carta. Segunda por que esta, assim como a primeira, não teve auxílio de um advogado ou do filho, já falecido. É uma carta de um espírito atormentado.

Parte desta carta abre este texto.

É possível sentir a dor que afligia Menocchio. De todas as amarguras sentidas a solidão parece ser a que mais lhe pesava. O isolamento sempre foi um fardo. Não podia conversar com os conterrâneos analfabetos que o consideravam alguém de espírito ruim. Tentava e atraía maus olhares. Estava só em meio à multidão. Não havia lugar para Menocchio.

Entre as seitas da época não havia lugar para o moleiro. Ginzburg deixa clara a incompatibilidade das ideias de Menocchio com as correntes religiosas da época.

Entre as tradições orais comuns no ambiente camponês europeu não havia lugar para o moleiro.

Considerado louco, possesso, falastrão, ateu ou apenas um homem de comum ao qual não se poderia atribuir qualquer entendimento, o moleiro de Montereale estava condenado à solidão.

A segunda carta é um pedido de misericórdia em que Menocchio pede para ser livre de suas atribulações.

Foi condenado. Torturado. Preso. Executado.

Uma história triste. Dentre todas as acusações feitas a Menocchio a fundamental não está presente. Ele era um pensador.

A sede de saber deste moleiro impressiona. Vê-lo definhar nas páginas da obra de Ginzburg é agonizar com ele como se nossa voz também fosse brutalmente emudecida. Os quase 500 anos que nos separam de Menocchio são esquecidos quando sofremos com ele a dor de não se compreendido e de ser acusado. Quando tentamos de forma pueril defendê-lo o tempo nos lança contra a realidade de que o moleiro está perdido.

Em muitos momentos vibramos com as descobertas do moleiro. Com a maneira sagaz de sua mente ler um texto e interpretá-lo de forma única. É certo que a tradição lhe diz como ler e entender, mas é ainda mais visível como ele percebe e a transforma de acordo com sua vontade. Ele cunha uma chave de leitura magnífica que usará por toda a vida.

Pobre Menocchio. Não sabia que não há espaço no mundo para espíritos livres. Estes morrem. Devem morrer. Ousar pensar e dizer de forma diferente da maioria é um caminho infausto. Muitos outros foram como ele e alguns até seus contemporâneos. Infelizmente são tantos e tão dramaticamente silenciados que não temos muitos conhecimentos de seus pensamentos e ditos senão pouquíssimas frases. Mas Menocchio permaneceu, ainda que hoje o conheçamos em sua hora derradeira e por intermédio de seus algozes.

Este texto começou com as palavras de Menocchio. É apropriado que o moleiro tenha a última palavra.

Ó Senhor Jesus Cristo, misericórdia, Jesus, misericórdia, eu não me lembro de ter discutido com ninguém, eu poderia até morrer por ter seguidores ou companheiros, mas eu li por conta própria, ó Jesus, misericórdia. (GINZBURG, 2008, p. 170).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

116. Existe solução?

Olhe para o caos do mundo.

Para vê-lo basta olhar para os lados e principalmente para baixo. Para onde ninguém mais olha.

Há solução? Não sei...mas canto!

Sob Pressão

Pressão, me derrubando com um empurrão
Derrubando você nenhuma pessoa pede isso
Sob pressão - que incendeia um edifício inteiro
Divide uma família em duas
Coloca pessoas nas ruas
Tudo bem!
É o terror de saber
A que ponto chegou o mundo.
Observando alguns bons amigos
Gritando 'Deixem-me sair!'
Rezo para que o amanhã - me deixe mais animado.
Pressão sobre as pessoas - pessoas nas ruas
O.k.
Dando pontapés por aí -
Chuto meu cérebro pelo chão
Estes são os dias em que nunca chove mas transborda
Pessoas nas ruas
Pessoas nas ruas
É o terror de saber
A que ponto chegou o mundo
Observando alguns bons amigos
Gritando "Deixem-me sair!"
Rezo para que o amanhã - me deixe mais animado
Pressão sobre as pessoas - pessoas nas ruas
Afastei-me disto tudo como um homem cego
Sentei num muro mas isso não funciona
Continuo fornecendo amor
mas ele está tão rachado e despedaçado
Porquê - Porquê - Porquê?
Amor, amor, amor, amor
A insanidade sorri, sob pressão estamos pirando
Não podemos dar a nós mesmos mais uma chance
Por quê não podemos dar ao amor mais uma chance
Por quê não podemos dar amor...
Dar amor, dar amor, dar amor, dar amor...
Pois o amor é uma palavra tão fora de moda
E o amor te desafia a se importar com
As pessoas no limite da noite,
E o amor desafia você a mudar nosso modo de
Nos preocupar com nós mesmos
Esta é nossa última dança
Esta é nossa última dança
Isto somos nós mesmos
Sob pressão
Sob pressão
Pressão

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

098. Valsa dos amantes

Lindo e triste.

Me lembra alguém.


Valsa dos amantes

Jorge Fernando

1
há um sorriso pequeno nos lábios que amei
faz tempo que te não via e ao ver-te pensei
estás mudada, estou mudado
e dos jovens que um dia se amaram nasceu este fado
2
há um sorriso pequeno no homem que eu sou
iniciamos o amor quando o amor nos chegou
não me esqueço, não te esqueças
que inocentes, escondidos, escondemos
o amor feito as pressas
3
não penses que te vejo como outrora
a vida esgota a vida hora a hora
o tempo gasta o tempo e marca a gente
o espelho mostra como eu estou diferente
não estou novo não sou novo
mas não peças que a vida te apague do fundo de mim
4
há um sorriso pequeno nos olhos dos dois
há uma lágrima triste que existe depois
fico a espera,estás a espera
mas a voz não se atreve e uma lagrima em mim desespera
5
não penses que te vejo como outrora
a vida esgota a vida hora a hora
o tempo gasta o tempo e marca a gente
o espelho mostra como eu estou diferente
não estou novo não sou novo
mas não peças que a vida te apague do fundo de mim"

sábado, 24 de outubro de 2009

091. Camões

Se há alguém que ande comigo, embora que apenas virtualmente e pelas minhas pobres elucubrações, este é Camões.

Ele chorou. Agora choro eu. (pelo menos tento, embora as lágrimas não venham)

Quando de minhas mágoas a comprida


Luís Vaz de Camões

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: - Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina...
Antes que diga: - mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.



***

Tanto de meu estado me acho incerto

Luís Vaz de Camões

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

***

E o mais lindo de todos, talvez porque sinto nele alguma esperança:

Ditoso seja aquele que somente

Luís Vaz de Camões

Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando absente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste de quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.

Fonte: Rua da Poesia

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

078. As Bruxas de Salém


Nesta madrugada eu vi o filme "As bruxas de Salém". Não vi este filme antes, pois o tema eram as bruxas e me disseram que as bruxas eram demônios e eu acreditei. E quando escrevo que disseram que eram demônios, que o leitor (se é que há algum) não tenha este que vos escreve em baixa conta, é que sempre vieram armados, pois de outro modo eu não acreditaria. Quer as armas? Claro, mas não use como os malditos usaram:


"A feiticeira não deixarás viver" Êxodo 22.18


"Não vos virarei para os advinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles. Eu sou o SENHOR vosso Deus." Levítco 19.31


"Mas chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição" Isaías 57.03


"Mas, quanto aso tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte." Apocalipse 21.08


Quer mais? Chega. Essas passagens já são mais do que suficientes.


É a falta que a Exegese, o Método Histórico Crítico e o bom senso fazem...


Enfim, o filme é triste. E fui dormir profundamente triste. Mas não com a morte do personagem do incrível Daniel Day Lewis, e sim com a dor do personagem. O público espera que em algum momento surja alguém com bom senso, com inteligência, com razão, mas não se pode esperar razão de crenças religiosas (parafraseando a prof.Dr. Naara Luna).


Se o leitor (se é que há algum) ainda não viu o filme, VEJA!!! Pare o que está fazendo (se não for importante para sua sobrevivência) e veja o filme.


É incrível como um caso ocorrido em 1692 seja tão atual...é como diz o prof.Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, "a teologia não aprendeu nada.".






quarta-feira, 5 de agosto de 2009

29. Tristeza e solidão

Fernando Pessoa, ainda não citado aqui, traz a beleza a este espaço:

Quando estou só reconheço

"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."

Fonte: Rua da Poesia

quarta-feira, 22 de julho de 2009

010. Da tristeza e solidão

Não sei qual a razão das festas não me agradarem. Gosto das expressões mais tristes e da solidão.

Não sou emo.

Sou apenas taciturno. Não sou o único. Um tal de Camões também.

Onde acharei lugar tão apartado

"Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente."


Fonte: Rua da Poesia.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

005. Do despertar da consciência

É curioso como um diálogo virtual acontece. Você escreve um post. Outro um comentário. E vão se entendendo ou não através das leituras e releituras de pequenos textos. O que mais me agrada é que há tempo para pensar e escrever algo mais detalhado do que aquilo que seria falado num encontro de 5 minutos num corredor entre aulas.

O diálogo começou com o prof.Osvaldo, lá no curso sobre Princípios Batistas. Depois houve a postagem de um pequenino texto meu, ao qual uma aluna ou ex-aluna respondeu. O prof.Osvaldo respondeu à aluna. Eu não consegui ficar calado depois de ler a resposta dele. Escrevi outro texto. Ele gostou e respondeu. Meu texto eu publico aqui, mas recomendo a leitura das considerações do prof. Osvaldo.

Qualquer dia desses eu voltarei a este texto.

“Viviana, querida...
Começo (mas talvez seja o dia em si) a ter medo do que estou fazendo com vocês. Despertar a consciência não é coisa simples. Despertá-la, e deixar que caminhem sozinhos, é ainda pior. Temo não ter esse direito. Temo estar todo errado. Temo. No momento, sou um poço de terror por dentro... Pudesse, talvez eu me retirasse para o deserto, e morresse lá, e só, onde não poderia fazer mal algum, a ninguém... só a mim...Osvaldo.”Prof. Osvaldo,

Não sei se alguém já se atreveu a dar uma resposta diante de teu temor. Seria um atrevimento meu tentar escrever algo? Não sei. Pode ser que sim. Mas já não posso calar a voz que durante tanto tempo e por duros golpes foi silenciada. Amordaçada.

Tudo o que estiver escrito aqui será apenas minha opinião e de modo algum tentará abarcar as idéias de outros alunos seus.

Vou direto ao assunto. O direito que temes não ter.

Não acredito que qualquer pessoa tenha direito a despertar a consciência de outra, porque não é algo pelo que se pede. Aquele que é desperto não pediu pelo despertar. Talvez gozasse de agradável sonho e pouco desejasse acordar. Talvez sofresse de penoso sonho e buscasse desesperadamente acordar e, como nos pesadelos, não pudesse se mexer e o ar lhe faltasse. Mas seja qual for a situação, abrir os olhos de outro ainda é uma intromissão.

Quantos que agora estão despertos não gostariam de voltar a sonhar? Não é pelo desejo de voltar a sonhar que tantos seminaristas tapam seus ouvidos em tantas aulas, cerram os dentes e fecham os olhos para aquilo que está escancarado? Não é pela vontade de voltar ao sonho confortável que outros tantos ignoram as descobertas arqueológicas e a crítica textual?

Coitados. Foram despertos sem que pedissem por isso. E considero-os coitados, pois não enxergam que estavam a sonhar e não concebem a realidade de forma diferente do sonho. A realidade deles é tão quebradiça que a mais simples opinião contrária seria fatal. Daí surge os cegos que não vêem os fatos, os surdos que não escutam os argumentos desfavoráveis, os aleijados que precisam se apoiar em teologias duvidosas e fracas que, quando faltam, caem, pois não podem se manter sozinhos.

Pergunto-me se eles não percebem que seus perfeitos sonhos não são suas criações, mas apenas um cenário pintado por outro.

Eu vivi durante vinte e seis anos numa arte desenhada para me aprisionar. Era um sonho deleitável. Um dia a arte se tornou borrão e a paisagem se tornou tenebrosa. Existiam monstros no cenário e eu nunca havia percebido. O primeiro monstro quis devorar meu prazer por revistas em quadrinhos. Coisa fútil. Banal. Tanto problema me causou que abandonei as revistas. Não sabia que era um monstro. Estava disfarçado de “Homem de Deus”.

A certeza de saber que fazia a vontade divina me confortou.

O segundo monstro foi muito mais cruel. Tinha tal desejo de me sufocar que mirou a única mulher que amei. Ela não seguia a mesma religião que eu. A dela obviamente era errada aos olhos do monstro furioso. A jovem não me pedia nada a não ser que a aceitasse. Ela me incentivava a continuar na igreja. Mas o mostro exigiu que eu me apartasse dela. Eu vi isto acontecer e vendo não quis acreditar, pois disseram: “É demônio! É mal!”, mas, por fim, me afastei por não poder contrariar a voz divina.

A certeza de saber que fazia a vontade divina foi a única tentativa de conforto.

Peço-te licença para mencionar tua esposa. Tu tens Bel. Foram várias as vezes que o ouvi mencionar o amor que tens por Bel. Imagines que alguém te dissesse que não podes ficar com Bel porque ela não era da mesma religião que tu. Não era um conselho. Era uma ordem. Este monstro também estava disfarçado de “Homem de Deus”. Ele trouxe uma arma indefensável. Trouxe a “palavra de Deus”. Esdras capítulo 10 e Neemias capítulo 13...

Apenas contei esta história porque almejo fazer-te sentir como me senti. Absurdo. Não tenho tanta habilidade com as palavras.

Estou revolvendo para não dizer o que desejo, mas é preciso. Teres despertado minha consciência para perceber que aquilo que fiz não foi necessariamente a vontade divina, foi extremamente doloroso. Mais ainda do que tê-lo feito. Foi e é uma dor que me atingiu e atinge com tamanha violência que quis e quero chorar.

É exatamente para entenderes que teu temor é válido que escrevo este texto. Talvez tu estejas mesmo errado. Mas tu foste o primeiro que não se disfarçou. Foste o primeiro que não me pediu absolutamente nada. Olhou para minha turma e apenas nos considerou dignos de saberem que existia outra forma de sentir. Tu me apresentaste o cenário.

Agora posso escolher ficar no cenário em que nasci (Não. Nunca mais pretendo voltar a este) ou posso escolher um cenário pronto em algum lugar, seja de cegos, surdos ou aleijados. Ou, e esta é a única opção que me agrada no momento, posso viver a vida para assim construir o meu próprio cenário. Um cenário feito por mim. Com minhas mãos, meu suor e minhas lágrimas. Pode não ser a mais bonita paisagem. Mas será a minha visão.

Não tinhas o direito. Mas te agradeço. Muito obrigado. O que seria de mim se estivesses no deserto? Vinte e seis anos e apenas um contou o que deveria ser bradado por todos os lugares. Que a vida não se resume ao que disseram e que ninguém pode ser dono de Deus.

Então é aqui?

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