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quarta-feira, 10 de março de 2010

124. Da Vida religiosa e da guerra

Cenário:

Carro a caminho de uma reunião de conselheiros, passando pela Igreja Mundial do Poder de Deus na Avenida Suburbana no Rio de Janeiro.

Personagens:

Quatro Conselheiros

Falas:

"Olha o tamanho da igreja..."
"É o cara fez uma baita placa..."
"Também...já sai da IURD com dinheiro..."
"Olha...eu acho que não tem que falar não! É que nem forças armadas! Cada um vai para onde se identifica...uns com artilharia, outros com comunicação, outros da infantaria...o importante é salvar almas!"

Comentário:

Conquanto muito me agrade que alguém diga para deixar as demais denominações em paz e que busque um ideal maior direcionado à importância das pessoas, (neste caso da alma eu sei...mas já é alguma coisa!) não posso ignorar a temática militar da concepção.

Cenário:

Uma rua do bairro Estácio.

Personagens:

Dois ou três embaixadores e dois conselheiros.

Fala:

"Missão é guerra. Você quer convencer o outro que aquilo que você prega é o melhor."

Comentário:

Novamente a concepção militar e agora dita com orgulho e a falar de "missão" como o movimento de Missões da Igreja Batista, ou seja, o esforço conjunto da igreja para levar a mensagem do evangelho ao mundo.

Alguns acreditam que todos os debates são guerras. Acreditam ser necessário vencer o interlocutor. Não considero esta uma abordagem sábia. Vencer? Vencer uma conversa? Quem está interessado em vencer um diálogo? Políticos. ahhhhhhh a vida é política!

Sim. É no contexto das relações interpessoais que se forma o indivíduo, mas não necessariamente é preciso que se façam dessas relações apenas motivações interesseiras com base na lei da vantagem.

Pior ainda quando é a lei da vitória ou derrota. Quando é necessário vencer tudo. Vencer todas as questões. Agora é "conquistar almas", "Vencer o inimigo (Diabo)", "Deus dará a vitória", Vitória em Cristo"...Perder se tornou inaceitável! E a música tem em seu refrão o "restitui..." e a outra tem as belíssimas referências "Se Deus não abrir o mar, Ele me fará andar sobre as águas."...

ok...

Ele abriu o mar e todos que passaram pelo mar morreram no deserto.
O que andou sobre as águas foi crucificado.

Alguém lembrou disso?

Usaram a outra passagem? A de Josué? Ok...sem problema. Não vou discutir o que havia antes da Criação...apesar de que seria muito bom...HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! (Momento de total irreverência).

A questão é que o vencer "a batalha da fé" está cada vez pior. Tenho receio de que com um fim da república as coisas desadem à uma perseguição dos evangélicos. OPS!!! Eu disse "com um fim" aqui em cima? Em Nova Iguaçu uma milícia liderada por um evangélico (MEDO) expulsou os donos de centros de umbanda e candomblé, a conhecida macumba, da região e transformou as casas usadas nos rituais em templos evangélicos, de tal modo que a igreja é conhecida como Igreja do XYZ (nome do líder da milícia). Esta mesma milícia foi responsável por 100 mortes na região...

Constantino da Baixada!!

"É guerra!". É mesmo. E estou perdendo feio. Digo aos garotos que tentar convencer o outro de que sua visão é a única certa é, no mínimo, arrogante. Apresentar como a sua escolha de fé é muito mais simples e tem o mesmo efeito.

Estou perdendo...e feio!

Vida religiosa não combina com guerra...

Debater, argumentar, apresentar os pontos de vista e discordar, mas sem a intenção de vencer. Apenas com o desejo de compartilhar.

Obrigado por me permitirem compartilhar com vocês estas poucas linhas.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

118. Do diálogo...

Por que o protestante entrou na igreja católica?

Não é piada...

Para fazer um trabalho da faculdade.

E neste trabalho que pode ser lido ao clicar aqui, aqui, aqui, aqui e aqui conheci José Antônio que agora me deu a honra de ter o nome em uma de suas postagens.

Recomendo, embora discorde de muita coisa...rsrsrsrs

"Liberdade e instinto".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

081. Noruega

No dia 06 de Maio deste ano, reuniram-se na capela da Faculdade Batista do Rio de Janeiro os alunos de Pedagogia e Teologia para a apresentação da palestra “Conhecendo outras realidades da Teologia e da Igreja. Entre a Noruega e o Brasil.”. Esta palestra foi dividida em três momentos. No primeiro momento houve a apresentação do professor MS. Delambre de Oliveira, no segundo momento houve a apresentação do estudante de Teologia, o norueguês David Andersen e no último momento a abertura do fórum para perguntas dos presentes.

O professor MS Delambre de Oliveira destacou os desafios que os pastores, filósofos, teólogos e estudantes de Teologia têm diante de si na era chamada pós-moderna, como a crise causada na Europa pelo ateísmo moderno, razão do esfriamento e assim fechamento de muitas igrejas. Destacou ainda a necessidade de responder àqueles que têm sofrido injustiças e que estão carentes de uma saída para suas crises. Tais crises podem ser financeiras, sentimentais, intelectuais e etc. Prof. Delambre destacou ainda a importância de que os estudantes de Teologia apresentem uma teologia interessada no próximo e não apenas voltada ao academicismo, quando poderia e, muitas vezes se torna, conceitos importantes, mas vazios para a prática cristã.

O estudante David Andersen apresentou uma parte de seus estudos a respeito do pentecostalismo no Brasil e no mundo. Destacou as diferenças do pentecostalismo entre Noruega e Brasil, demonstrando com avidez sua impressão do que foi observado em suas visitas às igrejas pentecostais brasileiras, em especial a Assembléia de Deus, igreja de maior representação pentecostal no mundo. David Andersen ainda ofereceu aos presentes o esclarecimento do contexto sócio-religioso na Noruega, suas implicações no presente e suas projeções para o futuro.

No terceiro momento, os estudantes presentes puderam realizar perguntas aos palestrantes. As perguntas foram em sua maioria com relação à comparação Noruega/Brasil na questão possibilidades do pentecostalismo e neopentecostalismo, o que exigiu a intervenção do prof. Delambre para, numa breve explanação, diferenciar os dois movimentos e sua ocorrência no eixo Noruega/Brasil.

O evento proporcionou aos estudantes de Teologia um entendimento da realidade do Pentecostalismo muito superior ao que era de domínio geral.

Pude estabelecer novas conexões de compressão da realidade, incluindo uma nova percepção da importância do Pentecostalismo e de suas diferenças. Entendi a necessidade que determinadas comunidades têm de aderir ao pentecostalismo, não como um caminho mais fácil, mas como a única abertura possível, pois a igreja exerce um papel social assaz imperativo para a ordenação e especialmente para o desenvolvimento da comunidade.

Tal evento é essencial para a formação acadêmica do estudante de Teologia que não pode permanecer isolado da realidade, mas que a exemplo dos primeiros pais da igreja, tem de conhecer a realidade do pensamento da época e, responder qual o papel da fé diante do cenário mundial. Ignorar a realidade de sofrimento das pessoas resultará em uma teologia acadêmica dispensável e numa teologia pastoral insuficiente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

077. Diálogo Religioso V

Continuação das postagens 072,074,075 e 076:

Conclusão

Toda vez que uma pessoa tentar entender a lógica de um ritual ou a origem da fé de outrem estará se ensartando numa experiência arriscada.

Se a pessoa curiosa professa uma fé diferente da que tenta compreender, é quase certo que sua tentativa culminará em fracasso.

Há no ser humano um dualismo construído que, como muralha, impede a percepção do outro como sendo alguém com quem se possa dialogar e, aqui se utiliza o conceito de sincretismo de Pierre Sanchis, construir homologias de relações entre os dois universos que reforçariam ou enfraqueceriam os paralelismos e semelhanças, mas que acima de tudo redefiniriam a identidade social.

Tal dificuldade acomete o ser humano, pois é necessário que se permita a abertura do íntimo de sua fé a outro, o que é percebido pelo Dr. Viktor E. Frankl como extremamente difícil a ponto de explanar que “os mesmos pacientes que, ...facilmente se dispõem a falar de sua vida sexual, até dos detalhes mais íntimos, mesmo perversos, mostram “inibições” quando se toca na sua experiência religiosa íntima.” (FRANKL, 2007, p.45-46).

Certo é que o ritual assistido foi muito agradável com exceção das músicas não estarem no folheto o que provocou incômodo de não poder acompanhar a assembléia nos cânticos.

A homilia feita pelo padre foi elucidativa em diversos aspectos, principalmente com relação à adoração de imagens e é até imaginável pensar que o mesmo fora avisado da presença de um protestante na missa, se tal ideia não fosse grotesca em si por já conter traços fundamentalistas preconceituosos.

A missa de Corpus Christi é uma celebração total do corpo de Cristo e possui tal importância que um jovem da CCFR afirmou que o momento da comunhão “não perde em nada para a vinda de Cristo”, pois a crença dos católicos é que é o próprio Jesus Cristo em alma, corpo e divindade está presente nos elementos. Para um protestante alcançar esta significação e sentimento dos católicos, é assaz necessário incluir em sua visão o conceito de Marcel Mauss, aceitando que esta missa, assim como todo rito, se situa “definitivamente no ato de acreditar em seu efeito, através das práticas de simbolização.” (SEGALEN, 2002, p.27).

A tarefa que está diante de todos, sejam católicos, protestantes ou fiéis de qualquer outra denominação ou religião é uma tarefa complexa. O diálogo religioso precisa ser aberto para que a indiferença e o obscurantismo que tanto mal já provocaram sejam eliminados. Talvez o passo inicial seja uma visita a uma missa ou a um culto evangélico. Quando perguntados qual era a visão geral acerca dos protestantes, seis jovens da CCFR se limitaram a dizer que “os evangélicos não são unidos a não ser quando querem falar mal dos católicos.”. Se esta é a visão geral que há entre as denominações da mesma religião, a possibilidade de troca de ideias e de ajuda está ainda muito distante.

É preciso que se abandone em parte o conselho de Bailey de que “antes de entrar em contato com as pessoas, pense como se estivesse entrando em uma floresta cheia de perigos e que rogue a Deus pelo ‘manto da prudência e da probidade”. (apud WEBER, 2007, p.178). Rogar a Deus por prudência e probidade deve ser feito, mas não devido aos perigos e sim para que, ao entrar em contato com o outro, seja possível encontrar nele o seu semelhante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, Peter Ludwig. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. 2.ed. São Paulo: Paulus, 1985. (Coleção sociologia e religião; 2)

D'ELBOUX, Roseli Maria Martins. Uma promenade nos trópicos: os barões do café sob as palmeiras-imperiais, entre o Rio de Janeiro e São Paulo. An. mus. paul. , São Paulo, v. 14, n. 2, 2006 . Disponível em: . Acesso em: 05 Jul 2009.

FRANKL, Viktor Emil. A presença ignorada de Deus. 10.ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2007. 131p.

http://www.flickr.com/photos/carlosmonte/96718511/in/photostream/Acesso em: 06 Jul 2009.

OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. Adeus à sociologia da Religião Popular. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v.18, n.2, p.43-61, dez.1997.

SEGALEN, Martine. Ritos e rituais contemporâneos. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2002. 164p.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Editora Martin Claret, 2007. 238p.

076. Diálogo Religioso IV

Continuação das postagens 072,074 e 075:

Resenha

No texto de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, “Romanização e privatização: o catolicismo de massas”, o autor destaca uma das mais fortes formas de catolicismo praticado no Brasil, distinguindo-o do catolicismo tradicional e do catolicismo de libertação, através da apresentação de suas características particulares facilmente encontradas se observados os comportamentos de católicos brasileiros.

A Igreja Divino Salvador pode ser enquadrada na forma especificada pelo autor como catolicismo de massa, pois apresenta o núcleo da devoção aos santos percebido quando o padre informou em sua homilia que “é muito bom beijar os santos” e que é necessária a veneração.

Há o controle do sagrado pelo corpo sacerdotal da igreja, não sendo possível a administração dos elementos eucarísticos por leigos, a não ser ordenados pelo padre. Os elementos sacramentais são dirigidos aos fiéis como forma de salvação e isso se prova pela ênfase do padre de que a Eucaristia tem poder para perdoar pecados.

Em conversa com a CCFR, foi assegurado com entusiasmo que a missa poderia ser seguida em qualquer igreja católica no mundo, pois a Igreja Divino Salvador estava de acordo com todas as demais igrejas que seguiam a orientação de Roma, o que reforça o pensamento de Oliveira de que a romanização visa instalar em todo o orbe o mesmo modelo romano de catolicismo.

Oliveira declara ainda que haja um combate contra as superstições, crenças e práticas tradicionais que se referem a santos antigos festejados com banquetes e folias e afirma que há uma substituição por santos aos quais é dedicado um culto rigoroso, moralizante e sacramental. Quando o padre afirma a ineficácia das muitas rezas, é claramente de acordo com o combate às superstições destacadas por Oliveira.

O autor ainda alerta que este processo fez surgir um novo tipo de catolicismo que adaptou certos elementos do catolicismo romano ao catolicismo popular, denominado catolicismo privatizado, no qual é possível encontrar a devoção aos santos com práticas sacramentais tendo por mancal a relação entre o fiel e o santo protetor. Este catolicismo privatizado que assegura uma relação individual é percebida na CCFR quando uma das jovens participantes afirmou que ninguém impediria outro de participar dos sacramentos, ou obrigaria a participar de várias missas, pois, completou outro jovem, “as pessoas não podem ser julgadas pelos mesmos parâmetros” e cada um dá o seu melhor de acordo com o que sente.

A liberdade do indivíduo, no entanto não é total, pois como lembra Oliveira, o lugar dos santos é a igreja e esta fica sob o controle do padre que pode impor certas normas para o culto. Na Igreja Divino Salvador, durante cerca de uma ano foi impedido pelo Pe. Contini que os instrumentos estivessem plugados às caixas de som devido a ocorrências consideradas desagradáveis. Embora tal proibição desagradasse aos jovens, a ordem foi seguida e as missas foram celebradas apenas com um violão ou à capela.

Oliveira enfatiza que o catolicismo privatizado é voltado para a “construção do sentido de biografias individuais”, em que a dimensão maior ou de classe não é clara, ainda que possa surgir, mas que é em uma relação clientelista que o fiel encontra alento para suportar as condições da vida.

Por fim, Oliveira afirma não se tratar de um novo sincretismo católico, mas da incorporação ao catolicismo privatizado de crenças e práticas instrumentalizadas com o objetivo de colocar o sagrado a serviço das necessidades imediatas do fiel e que a maioria dos brasileiros segue autonomamente este caminho por que a Igreja Católica ainda detém o acesso à vida além da morte e que para desligar-se de tal garantia seria necessária excessiva certeza de que outros meios podem garantir a famosa “vida eterna”.

075. Diálogo Religioso III

Continuação das postagens 072 e 074:


A missa

A missa observada iniciou-se às 18h00min do dia 11/06/2009. As portas da igreja foram abertas trinta minutos antes da missa começar. Pouquíssimas pessoas chegam com antecedência. Algumas chegam e vão até as imagens dos santos espalhadas pelas paredes, outras vão até o “Santíssimo”, em comum entre elas há que, uma vez diante das imagens, levam às mãos ao coração e fazem suas rezas, outras parecem conversar com a imagem. Algumas vão da imagem de algum santo até o “Santíssimo” e depois se sentam para esperar o início da missa.

Há um grupo de jovens posicionados ao lado esquerdo da igreja que ensaiam algumas músicas. São cinco jovens, sendo duas mulheres e três homens. Um dos homens toca teclado e o outro toca violão. Os instrumentos estão plugados em caixas de som e há microfones para todos. Eles trazem os instrumentos e os montam pelo menos uma hora antes da missa. O contato inicial com a comunidade se deu através de um dos jovens que permitiu o acesso do autor e facilitou a movimentação pela igreja, além do acesso ao grupo de que faz parte, denominado “Comunidade Católica Filhos da Redenção” (CCFR).

Num encontro posterior com o grupo foi possível descobrir através da aplicação de um questionário que os jovens que ensaiavam são membros de famílias de classe B[i], como a maioria dos moradores do bairro, e universitários ou com ensino superior completo.

Quando restam somente dez minutos para o início da missa há uma entrada maior de pessoas e em poucos minutos a igreja está quase lotada. É possível contar apenas dez espaços disponíveis para acomodação.

Há uma preponderância de pessoas na faixa etária entre 35-60 anos, mas há também uma grande quantidade de adolescentes e jovens, talvez mais de cinquenta presentes. Os idosos são o menor número e a maior parte está acompanhada, possivelmente por parentes. Há homens e mulheres em quantidades praticamente iguais. As pessoas estão vestidas de forma simples, mas composta. Uma minoria traja bermudas e chinelos. Os jovens, no entanto estão mais engalanados e perfumados, não sendo possível estar diante de um deles sem se perguntar por que destoam dos demais presentes. Em um encontro posterior um membro da igreja explicou que é comum que os jovens façam da igreja um ponto de encontro daqueles com mais afinidades, o que está de acordo com a tese de Durkheim de que, sejam “negativas, positivas ou piaculares, as manifestações rituais rompem com o ramerrame do quotidiano...têm como efeito reforçar os sentimentos de pertença coletiva ou dependência de uma ordem moral superior que salvam os indivíduos do caos e da desordem” (SEGALEN, 2002, p.22).

É fácil identificar na igreja algumas separações. Os mais idosos estão nos primeiros ou nos últimos bancos enquanto a ala central é ocupada por adultos. No lado esquerdo há um predomínio dos jovens e alguns pegam bancos de plástico quando os bancos de madeira estão totalmente ocupados. Outros ficam de pé, mas permanecem todos juntos.

A missa começa pontualmente às 18h00min com as badaladas do sino. O padre entra pela lateral e junto dele um grupo de jovens uniformizado com calça e camisas brancas. O padre é um senhor negro com cerca de 1,60 m de altura vestindo uma batina branca com ornatos dourados. Posteriormente o autor é avisado de que existem três padres na igreja. O Pe. Contini, que é o principal, e os párocos Pe. Boaventura e Pe. Jurandir que é quem oficializou a missa no dia da visita. Cada um deles tem atribuições diferentes. O Pe. Contini é o administrador da igreja, enquanto o Pe. Boaventura cuida dos casais e dos idosos e o Pe. Jurandir cuida da juventude.

Uma mulher[ii] do grupo que entrou com o padre se dirige até um microfone do lado direito e começa a leitura de uma parte do folheto que estava no vestíbulo. Após a leitura, o grupo que atua na música entoa uma canção branda que não está no folheto. Começam assim os “Ritos Iniciais” de acordo com o folheto. Percebe-se que é uma música conhecida da assembléia,[iii] pois a maioria canta junto com grupo. O tempo de duração da música é curto e o modo de cantar é muito diferente do que é visto nas igrejas protestantes. A música é apenas um complemento da missa e o grupo responsável por sua execução apenas atua na missa sem qualquer ideia de “participação especial”. Um dos membros do grupo afirmou posteriormente que de modo algum eles poderiam dizer que se “apresentam” numa missa, pois isso seria inaceitável, assim, de acordo com a obra de Van Gennep, pode-se dizer que um grupo que participasse de uma missa apresentando músicas extravagantes ou comportamentos excêntricos não seria coeso ao grupo uma vez que a “participação nos rituais se torna um guia para avaliar o grau de integração à comunidade” (SEGALEN, 2002, p.46).

Após a música, há um momento de saudações entre o padre e a assembléia, quando são repetidas exatamente as palavras constantes no folheto. Após, há um novo cântico que também não está no folheto. Sua duração é de apenas duas frases. Em seguida há o “Ato Penitencial” em que o padre e a assembléia pedem perdão a Deus. A assembléia apenas repete uma frase que começa por Cristo ou Senhor e que termina como “tende piedade de nós”. Em seguida há um hino de louvor que não é cantando, mas lido. É iniciado pelo padre e continuado por todos. É um hino que engrandece a Deus e a Jesus Cristo e que pede piedade e acolhimento da súplica dirigida. Após há uma oração lida pelo padre que consiste no pedido a Deus de uma permissão para venerar o sacramento e colher os frutos da redenção em Jesus Cristo. Após a leitura do padre há um “Amém” de todos e de acordo com o folheto tem início a “Liturgia da Palavra” com a fala da Comentarista.

Esta parte da missa é composta por várias leituras realizadas individualmente por alguns jovens do grupo que entraram com o padre. Após cadê leitura todos dizem “Graças a Deus.” em uníssono.

A primeira leitura é feita por um jovem que sem esconder o nervosismo, lê o texto de Êxodo capítulo 24, 3-8. Em seguida há uma música que não consta do folheto e que é repetida mais de quatro vezes. A assembléia canta em conjunto com o grupo. Após este cântico há a segunda leitura, feita por uma jovem que lê pausadamente o texto de Hebreus capítulo 9,11-15. Logo depois a Comentarista informa à assembléia que lerá os números impares e que a assembléia lerá os números pares da “Sequência”, que é um texto divido em vinte e quatro partes. Não há um convite à participação. Todos participam como se tivessem ensaiado antes. O texto é uma exaltação à eucaristia ao mesmo tempo em que explica o que é o pão e vinho, sua instituição por Cristo e sua importância. Num encontro posterior um componente da CCFR assevera que o texto é de autoria de São Tomás de Aquino.

Após a leitura da “Sequência” todos se levantam e há um novo cântico, um pouco mais agitado e que leva alguns jovens a iniciarem tímidas palmas que não são acompanhadas pela maioria da assembléia, mas que não recebem desaprovação pública do padre ou das pessoas ao redor. Em seguida é lido o texto de Marcos capítulo 14,12-16 e 22-26 pelo padre. A assembléia apõe a frase “Glória a vós, Senhor.” quando o padre termina de ler o texto.

Todos se sentam e o padre inicia a homilia. Em sua fala, o padre explica a origem da eucaristia, a importância do Jesus eucarístico, qual era o objetivo quando foi criada a missa de Corpus Christi e assevera que o próprio Jesus instituiu a “Santa Eucaristia” na quinta feira considerada santa e que a Igreja Católica celebra a instituição da Santa Ceia por Jesus. O padre ainda explica à assembléia que não se devem adorar aos santos, mas apenas a Jesus, pois este “é Deus, é para ser adorado”, enquanto aos santos deve ser destinada apenas a devoção. O padre descreve ainda que algumas pessoas dizem que os católicos adoram os santos, conquanto o que acontece é a veneração dos santos. Ele ainda critica as pessoas que vão diretamente aos santos para beijá-los, quando deveriam ir primeiro ao “Santíssimo” e que nem mesmo “rezar três mil Pais-nossos ou mil Ave-Marias” adiantam se o indivíduo “não for devoto a Eucaristia”. Ele ainda afirma o poder da Eucaristia para perdoar os pecados, desde que sejam “pecadinhos...danadinhos de estimação”, mas alerta que se for um “pecado cabeludo” apenas através do ato de se confessar.

Enquanto o padre fala a maioria dos adultos e idosos permanece em silêncio, mas alguns aparentemente abaixo dos trinta anos se entreolham, conversam, acenam uns para os outros e a maioria dos jovens do lado esquerdo conversa por muito tempo. Um casal de namorados sentados pouco à frente do autor conversa até metade da homilia.

Quando o padre encerra sua homilia, dá-se início à “Profissão de Fé”, quando todos se levantam e recitam o Credo Apostólico impresso no folheto. Logo depois há um momento de preces pela comunidade quando são lidas partes de um texto pelo padre, pela assembléia e pela comentarista. São preces pedindo a comunhão com Cristo através da eucaristia e que seja sempre realizada com amor e comunhão entre os irmãos. Pede ainda pelas crianças que se preparam para participar pela primeira vez, embora não houvesse nenhuma criança participando no dia da visita, pede também pelo trabalho dos catequistas e pelas comunidades que enfrentam dificuldades devido a perseguições e termina com um pedido de proteção à Igreja. Neste momento é cantado pela assembléia um “Amém”.

Segue-se para a “Liturgia Eucarística” com um canto que não consta no folheto e neste momento duas senhoras passam pela assembléia com duas cestas vermelhas recolhendo doações durante o cântico. São várias contribuições deitadas nas cestas, mas não refletem a quantidade de pessoas presentes. Após este momento todos ficam de pé e oram pedindo a Deus que receba o sacrifício realizado. Depois há uma oração lida pelo padre e segue-se para uma leitura entre o padre e a assembléia. O escrito afirma a presença de Jesus no local e reconhece a eucaristia como um dever “justo e necessário”. Esta leitura termina com a música “Santo, Santo, Santo” sendo entoada pelo grupo musical e seguida por todos.

Logo após é feita a leitura da “Oração Eucarística” que é um discurso de louvor a Deus com partes do texto referente à Santa Ceia e a explanação da importância da eucaristia como memorial de Cristo e modo do fiel se fazer um com Cristo no corpo e espírito ao ingerir dos elementos eucarísticos que são transubstanciados no corpo e divindade do próprio Jesus. A leitura termina com mais um “Amém” cantado.

O que acontece a seguir é espantoso. Sem que haja qualquer menção ou solicitação, quase todos os presentes se ajoelham e levantam as mãos como esperando receber algo, as únicas exceções são o autor e um homem com a perna recém operada que apesar de estar sentado, ergue suas mãos do mesmo modo. O padre pega a hóstia que tem o formato de um pequeno disco e levanta-a a fim de que todos a contemplem e depois faz o mesmo com um cálice. É o momento de maior silêncio e nada é ouvido na igreja. Não há conversas ou burburinhos, nem acenos ou troca de olhares, estão todos hirtos olhando para a hóstia e para o cálice com vinho. Após alguns instantes de silêncio as pessoas dão-se as mãos e rezam o Pai-nosso depois se sentam e o grupo responsável pela música inicia um novo cântico cuja letra não está impressa no folheto, o que não impede a assembléia de cantar.

Enquanto a música é entoada, o padre e um homem[iv], chamado de Ministro da Eucaristia (M.E.) com vestes sacerdotais se dirigem até a frente das pessoas se posicionando um à esquerda e o outro à direita da assembléia com dois paramentos em que estão as hóstias, dois jovens auxiliam com pequenos pratos para impedirem a possível queda de alguma hóstia ou farelo no chão. As pessoas se levantam e vão até o padre e até o homem para receberem a hóstia. Formam-se grandes filas que tomam os corredores da igreja. O padre e o M.E. pegam as hóstias e levantam diante de cada fiel que se aproxima e perguntam se a pessoa crê que aquele é o corpo de Cristo, dependendo da resposta a hóstia é colocada na boca do fiel. Este momento dura vários minutos e a assembléia permanece cantando. O M.E. que auxilia o padre vai até os jovens que estão com os instrumentos e entrega a hóstia a cada um deles.

Nem todas as pessoas vão à frente para receber os elementos eucarísticos. É certo que a maioria presente participou, mas algumas pessoas permaneceram sentadas.

Em seguida há a leitura da “Antífona da Comunhão” pela Comentarista e um cântico de ação de graças. Enquanto isso o padre e o M.E. cobrem os elementos restantes com toalhas brancas e depois o M.E. retira os elementos levando-os até o “Santíssimo”. O padre solve o conteúdo do cálice e, com um pano branco, seca o seu interior para em seguida entregá-lo a uma jovem que sai com o cálice pela lateral esquerda. O padre fecha um grande livro onde estavam os textos que leu durante a missa e depois da leitura da “Vivência” pela Comentarista, o padre profere uma benção final para a assembléia. Por fim, o padre e o M.E. saúdam a imagem frontal do Cristo no grande painel, erguem suas mãos e fazem o sinal da cruz. O grupo de jovens que os acompanhou durante a missa se levanta e sai com o M.E. e o padre então se retira. Neste momento as luzes começam a serem apagadas e a maioria das pessoas se retira da igreja enquanto umas poucas permanecem conversando do lado de fora.



[i] Foi utilizado o critério “Abipeme” desenvolvido pela Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado e atualizado pela Marplan Brasil e LPM/Burke. De acordo com este critério é possível atribuir uma classificação socioeconômica à população através da análise de alguns itens de conforto no lar (máquina de lavar roupa, geladeira com ou sem freezer acoplado e aspirador de pó) ou de outros itens como automóvel, rádio, TV em cores, banheiro e empregada mensalista. Os itens recebem pontuações que podem variar de acordo com a quantidade de unidades possuídas. A instrução do chefe da família recebe uma pontuação segundo o grau de escolaridade. Por meio da análise destes dados é possível separar a população em cinco classes, denominadas A, B, C, D e E.

[ii] Esta mulher é chamada de “Comentarista”. Trata-se de uma pessoa convidada pelo padre para acompanhá-lo durante as missas realizando as leituras constantes no programa.

[iii] Enquanto os protestantes denominam “congregação” ao conjunto de religiosos pertencentes à mesma ordem, a igreja visitada se refere a este conjunto como “assembléia”. Considera-se necessário enfatizar esta diferença, pois os protestantes utilizam o termo “assembléia” ao se referiram ao mesmo conjunto só que em uma situação de reunião para um determinado fim burocrático.

[iv] O homem que auxiliou o padre se chama José Carlos e é um “Ministro da Eucaristia”, uma pessoa escolhida pelo padre para levar a Eucaristia a pessoas enfermas. É um cargo que exige a participação preliminar em um curso com aproximadamente dois dias de duração e a ordenação através da imposição de mãos.

074. Diálogo Religioso II

Continuação da postagem 072.

Nome da instituição

Igreja Divino Salvador. Pertencente à Ordem dos Salvatorianos.

Localização

Rua Divino Salvador, 153 - Piedade, Rio de Janeiro, RJ. CEP: 20756-210

Descrição do local

A igreja visitada está localizada perto de uma das maiores avenidas do município do Rio de Janeiro, a Avenida Dom Helder Câmara, mais conhecida pelo antigo nome, Avenida Suburbana, que liga onze bairros da Zona Norte do RJ.

Há duas favelas próximas à igreja, a saber, o Morro da Caixa D’água e o Morro do Urubu e embora o clima de insegurança presente na maioria das favelas cariocas seja constantemente apresentado pela mídia, um membro da igreja, que acompanha o autor durante a visita, afirma que a comunidade eclesial nunca teve problemas com violência no local a não ser um pequeno susto com uma bala perdida que quebrou um vidro da casa paroquial.

O transporte público é de fácil acesso e alguns ônibus circulam em frente à igreja. O bairro em que está localizada a igreja tem o terreno ondulado e acidentado, sua formação é de tal forma irregular que as ruas não estão no mesmo nível. A igreja está no ponto mais alto da rua.

É um bairro heterogêneo com um comércio popular muito movimentado que acompanha a avenida principal enquanto as ruas ligadas à avenida são estritamente residenciais. Há um grande supermercado na esquina da Rua Divino Salvador, que garante um fluxo intenso de pessoas no local. É um bairro de classe média e classe média baixa. As residências são juntas umas das outras e compartilham de um só muro entre elas. A maioria das casas tem dois ou três andares e garagem. É possível ver vizinhas conversando às portas de suas casas, enquanto meninos jogam futebol na rua.

Existem mais de dez igrejas de diferentes denominações num raio de um km da igreja visitada, incluindo outra católica e a conhecida Catedral Mundial da Fé - Templo Maior, da Igreja Universal do Reino de Deus e várias Casas de Umbanda, geralmente com a inscrição “Casa de Caridade” escrita no muro ou na porta.

A elevação do terreno em que foi construída a igreja implica ser necessário subir uma pequena ladeira de aproximadamente dez metros. Esta ladeira serve como muro para a igreja que guarda o acesso por meio de dois grandes portões de ferro localizados nas laterais da ladeira, nas três visitas realizadas à localidade os portões sempre estiveram abertos. A entrada de veículos acontece pela direita da igreja e a saída pela esquerda, seguindo o curso do trânsito da rua.

Ao chegar ao cume da ladeira é possível ver as ruas próximas e observar as casas, o trânsito dos veículos e a movimentação das pessoas nas circunvizinhanças, mas é quase impossível empregar tempo na observação das peculiaridades do bairro, pois a igreja[i] é portentosa e causa um impacto visual nos visitantes.

O terreno da igreja é imenso. Há a igreja, duas casas paroquiais, sendo a antiga destinada à utilização da comunidade em seus mais diversos grupos e um mosteiro, a própria colina serve como estacionamento. Na colina há ainda um pequeno compartimento para que os fiéis acendam velas e façam suas rezas. Na frente da igreja há seis palmeiras imperiais[ii] que contribuem para o deslumbre dos visitantes. A igreja tem um estilo gótico. De sua base até o alto da torre onde há quatro relógios e um sino, sua altura deve ultrapassar vinte metros. É construída de pedras marrons escuras. Não há cor do lado de fora a não ser quando os quarenta refletores de luz amarela são ligados e provocam um espetáculo de luz e sombra pulcro na noite do bairro.

Há um pequeno espaço em frente a igreja, feito de pedras verdes, com um busto do padre Francisco Maria da Cruz Jordan, sendo mais conhecido por seu nome de batismo, João Batista Jordan, fundador da Ordem dos Salvatorianos[iii]. No pilar em que está o busto do Pe. Jordan está gravada sua data e local de nascimento, sendo 16/07/1848 em Gurtweil, Alemanha e sua data e local de falecimento, sendo 08/09/1918 em Tafers, Suíça.

Há na frente da igreja, acima de sua entrada principal, uma imagem no tamanho de um homem comum protegida por vidro representando Jesus Cristo, com uma inscrição em sua base, onde se lê “Jesus. Salvador do Mundo. Ouvi-nos. 1929.”. Esta imagem é iluminada por refletores próprios com uma luz branca que a realçam em comparação com a igreja. De fato, os vitrais são muito escuros quando vistos do lado de fora e apenas sua armação metálica é chamativa. É presumível que tal acondicionamento se dá para que a imagem que representa Jesus Cristo tenha a atenção de todos que olham para a igreja.

A igreja tem uma entrada principal e duas entradas laterais que levam à casa paroquial antiga ou à secretaria e não foram utilizadas pela maioria dos indivíduos quando da entrada à missa no dia da visita.

A entrada central leva a um vestíbulo com uma pequena sala à direita que tem uma grande imagem, protegida por grades, representando Jesus Cristo com uma pequena urna a seus pés. Um membro da igreja me informa que a urna é um sacrário, e explica que é uma caixa em que são guardados os elementos da eucaristia, ou seja, a hóstia, considerada o corpo de Cristo. Ao lado desta sala há uma pequena fonte de cerca de trinta centímetros com água benta. Esta fonte é adornada com imagens de golfinhos. Percebendo a surpresa do visitante diante da presença dos golfinhos, o membro da igreja rapidamente assevera que a fonte adornada gerou reclamações entre os fiéis da igreja.

Ainda no vestíbulo, à esquerda vê-se uma placa com a data de inauguração da igreja em 07/04/1912 e da paróquia em 07/04/1936 e o nome de seu fundador o Pe. Felisberto Schubert - SDS[iv]. Vê-se ainda a entrada para a secretaria e duas pequenas mesas que tem alguns folhetos. Um dos folhetos leva o nome de “A Missa” e tem as etapas da missa a ser celebrada. É um programa com quatro páginas num papel semelhante ao de um jornal. Chama atenção a presença de uma propaganda da rede de supermercados Sendas na parte inferior da terceira página do folheto.

Seguindo em diante o visitante há de ficar encantado com a visão do interior da igreja. O exterior e o interior são profundamente antagônicos. As cores, as imagens, as pinturas são abundantes. Seria necessário muito mais espaço do que o disponível neste modesto trabalho para apresentar a riqueza dos símbolos presentes na igreja, assim, espera-se apenas tentar transmitir com fidelidade ao leitor as particularidades vistas, a fim de que lhe seja possível formar uma ideia do local.

As paredes têm colunas que vão do chão até se encontrarem como arcos no teto. Entre as colunas há vitrais com mais de quatro metros em ambos os lados da igreja. As paredes possuem três cores, sendo azul até um metro de altura, depois branco por mais dois metros e por fim é um laranja-rosado que se assemelha ao tom salmão. Não há imagens ou pinturas na parte azul. Ao redor da igreja e apenas na parte branca das paredes, existem pequenas imagens feitas em madeira que representam cenas da vida de Jesus Cristo. São imagens de cerca de cinqüenta centímetros com várias personagens, como os apóstolos, os soldados romanos e etc. Entre estas imagens há figuras que representam os santos da igreja.

A igreja possui mais de quarenta bancos e que estão alinhados de tal maneira que as pessoas circulem por três corredores, sendo dois laterais e um central. Em cada corredor lateral há um grande confessionário feito de madeira escura e que permite ao fiel permanecer ajoelhado para a confissão sem ser notado por quem passa pelos corredores. Em cada confessionário há um nome de um padre diferente, mas uma mesma inscrição denominada “Ato de Contrição” dos dois lados, a saber, “Meu Deus, tenho muita pena de ter pecado, pois merecí ser castigado, ofendí a Vós, meu Pai, meu Salvador, perdoai-me, Senhor, não quero mais pecar.”.

No dia da visita o corredor central permaneceu interditado, pois esteve ornamentado com um lindo tapete de sal. Havia um aviso no início do corredor que indicava que o tapete tinha sido feito pelas crianças da igreja. O tapete tinha vários desenhos, desde o símbolo da SDS até caricaturas de passagens bíblicas como a crucificação, a arca de Noé, o jardim do Éden entre outras. Este tapete de sal é feito literalmente de sal grosso tingido e de serragem. Alguns membros da igreja foram questionados a respeito da significação do tapete, mas apenas um prestou uma explicação que, segundo ele o tapete faz alusão à entrada de Jesus em Jerusalém antes do sacrifício vicário e que assim como na época bíblica estenderam os ramos de oliveira na passagem, o tapete representa um ornamento do caminho pelo qual Jesus Cristo, representado pelos elementos da eucaristia, atravessaria. Os demais membros disseram apenas que se tratava de uma tradição.

Tudo é muito enfeitado, com vários entalhes e muitas cores e principalmente dourado e existe um sistema de climatização nas laterais e luzes fluorescentes que garantem relativo conforto aos presentes. No entanto, o que mais chama a atenção é que não há um local em que não se veja ao menos uma imagem. Nos cantos laterais é possível enxergar tantas figuras que o visitante fica confuso com tanta informação visual.

Há no lado direito uma grande imagem que representa Jesus Cristo crucificado e há também em sua base outro sacrário que, na concepção católica, contém o corpo de Cristo, chamado de “Santíssimo”. Os fiéis não têm acesso ao ponto de tocarem a imagem, como é possível às demais, este é o segundo “Santíssimo” que foi visto na visita, sendo o primeiro localizado no vestíbulo. Antes de a missa começar, foram vistos vários fiéis que ao entrarem na igreja foram direto ao “Santíssimo” e se ajoelharam ou permaneceram de pé enquanto faziam suas rezas. A pessoa que acompanhava a visita e que mostrava as instalações da igreja ao atravessar perto do “Santíssimo” se curvou completamente e levou a mão ao peito, representando o coração, e o fez da mesma maneira todas as três vezes que passou pelo local o que indica a importância dada aos elementos eucarísticos como corpo de Cristo.

Há um painel que toma toda a parede frontal da igreja. Este painel parece ser pintado ou construído com areia de colorações diversas e é divido em quatro partes, sendo a primeira a sua base composta da concepção de uma mesa com os apóstolos. A segunda parte, à esquerda, a representação do nascimento de Jesus Cristo, com as formas do infante Jesus, José, Maria, pastores e um anjo. A terceira parte, à direita, estão concebidas as figuras de três mulheres. Um dos membros da igreja me informa que acredita ser a representação das mulheres que choram à beira do caminho, mas que não tem muita certeza a respeito. A quarta parte, no centro da parede, tem um desenho que simula Jesus Cristo ressurreto, com uma cruz na mão esquerda e o lado do corpo aberto. É um painel suntuoso.

As colunas, os arcos, as esculturas e o grande painel frontal são majestosos e a riqueza simbólica de cada uma destas coisas é impressionante. Após considerar todas estas figuras simbólicas, dá-se razão a Peter L. Berger quando utilizou apropriadamente a palavra “plenitude” ao se referir ao universo católico e enquanto considerou o protestantismo como radicalmente mutilado. A riqueza de conteúdos religiosos foi drasticamente sacrificada no protestantismo e enquanto o católico tem os sacramentos da Igreja, a interseção dos santos e até a crença em milagres, o protestante desvalorizou todos os sacramentos como meios de salvação, “obtendo com isso a racionalização religiosa do mundo em sua forma mais intensa.” (WEBER, 2007, p.116).



[i] O termo “igreja” é utilizado pelos protestantes ao se referirem a todo o espaço utilizado pela comunidade religiosa. Deste modo, um prédio anexo ao santuário é “igreja” assim como o próprio santuário. Tal concepção não foi identificada na comunidade católica visitada que, sempre se referia a “igreja” como exclusivamente o local do santuário, enquanto seus anexos eram denominados de paróquia, casa paroquial, mosteiro e etc.

[ii] A Palmeira Imperial foi muito utilizada a partir do Séc. XIX no Rio de Janeiro como símbolo do poder do Império. A historiadora Roseli Maria Martins D’Elboux afirma que a “espécie vincula-se definitivamente à imagem do poder monárquico, à idéia de nobreza, distinção e classe.” (D’ELBOUX, 2006, v.14, n.2).

[iii] Para acesso à história da Ordem dos Salvatorianos, indica-se o site http://www.salvatorianos.org.br/.

[iv] O termo “SDS” significa “Sociedade do Divino Salvador” que é o nome civil da Ordem dos Salvatorianos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

072. Diálogo Religioso

Na matéria Sociologia da Religião ministrada pela prof. Dr. Naara Luna na FABAT tive de realizar uma visita a uma instituição religiosa que representasse uma das religiões estudadas no 3o período.

Eis, em partes, o trabalho que surgiu da experiência:

Introdução

“... não temos tempo para o rito porque não temos tempo de dar tempo ao tempo no qual todo rito nos faz entrar,” (apud SEGALEN, 2002, p.59)

A frase de Luce des Aulniers reflete a dificuldade dos indivíduos da era moderna de serem tomados pelo encanto de um ritual. Não há qualquer conotação mágica na palavra “encanto”, apenas poética, mas a possibilidade de interpretação já evidencia a força destruidora da modernidade que extingue o poético na batalha pela vitória isolada e total do racional. O autor almeja que este módico trabalho apresente o encanto de um ritual para o qual o próprio nunca teve tempo, a missa de Corpus Christi realizada pela Igreja Católica.

Foi escolhida para visita uma igreja que possui em seu rol de membros um amigo de longa data do autor, o que facilitou a circulação pelos ambientes da igreja e o acesso aos demais membros da comunidade.

A visita foi realizada no 11/06/09 quando foi celebrada a missa em ocasião do dia de Corpus Christi.

Foram realizadas mais duas visitas a fim de conversar com alguns indivíduos da comunidade, uma no dia 13 e outra no dia 27/06/2009 Esses encontros resultaram em mais de três horas de conversas em que foram distribuídos questionários e realizadas entrevistas a fim de compreender a significação geral e as abrangências atribuídas pelos fiéis ao ritual. Também foram feitas perguntas com a finalidade de esclarecer qual é a representação do Catolicismo para os indivíduos.

A partir dos dados coletados foi possível a concretização deste trabalho como um texto analítico para apresentar a comunidade, o ritual e os seus significados apreendidos, e a visão do autor do estudo a respeito do grupo assistido.

A apresentação de dados técnicos empataria a leitura deste estudo que se tornaria enfadonha, assim, optou-se por uma abordagem diferente, demonstrando as opiniões e impressões causadas ao autor durante a visita à igreja sem que isso seja um direcionamento ao leitor para aceitar qualquer juízo presente neste trabalho. Espera-se que leitura deste material seja simples e de fácil acesso a todos que se aventurarem a descobrir qual a reação de um protestante em visita a uma igreja católica.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Jesus In Índia

Foi transmitido no canal Telecine Cult da NET o documentário "Jesus in India" produção de Paul Davids de 2008. A sinopse no site informa:

" Um dundamentalista do Texas é afastado de sua igreja por questionar sobre os anos de Jesus que não aparecem na Bíblia, os chamados "anos perdidos". Em sua pesquisa por respostas, ele descobre uma teoria que diz que Jesus teria viajado pela Índia.".

O documentário é a narração da busca de Edward T. Martin pela resposta à pergunta pronunciada pela primeira vez na classe de catecúmenos de sua igreja: "Onde estava Jesus dos 12 até os 30 anos?" e que foi respondida com um categórico "Deus não quer que saibamos nada a respeito disso, ou então teria escrito na Bíblia".

Martin não apresenta uma tese sua, mas sim as possíveis explicações existentes para a "cortina de silêncio" presente nos Evangelhos. Vale lembrar que Martin não é exegeta ou teólogo, mas bacharel em Comunicação e Pedagogia e todas as suas afirmações devem ser consideradas sob este ponto de vista. Será que ele tem competência para sustentar a hipótese que demonstra no filme? Sua experiência é devida às várias viagens que fez pelo mundo e pelas conversas com líderes religiosos representantes de correntes do Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo e etc.

A tese sustentada no documentário é de que Jesus aos 13/14 anos de idade já era conhecido pelos seus discursos inspirados e que muitos homens da região desejavam-no para marido de suas filhas, o que ocasiona uma fuga de Jesus pela Rota da Seda (6.500 km de Israel até Índia) que era a rota comercial mais conhecida da época e passível de ser percorrida em pouco menos de um ano. Por que Jesus vai à Índia? Paramahansa Yogananda estabelece a relação entre Jesus e a Índia com a visita dos magos do Oriente, que seriam sacerdotes de Zaratrusta, na ocasião do nascimento de Jesus, descrita em Mateus cap.2,1-12.

Por esta rota, Jesus teria chegado a Caxemira (hoje, Paquistão, Índia e China) e teria estabelecido relações com os sacerdotes da região. Jesus teria aprendido os ensinamentos hindus e vivido entre os sacerdotes até que começou a criticar a vaidade dos Brahmans e a divisão em castas, sendo contratado um assassino para matar Jesus (Gostei desta hipótese, pois sendo Jesus aquele que se levanta contra a autoridade eclesiástica/sacerdotal em favor dos desprezados, a história não modifica um aspecto de Jesus que é central). Diante da possível execução, Jesus fugiria para Kapodevastu e depois para outros locais mais ao norte do Himalaia, onde afirma-se, vivam os homens sagrados. Depois de algum tempo Jesus retorna à Palestina e começa seu ministério.

Se até agora o leitor (se é que há algum) ficou tranquilo, esta tranquilidade pode ser ameaçada agora.

Jesus não teria falecido na crucificação, mas teria sido tratado por José de Arimatéia e, uma vez recuperada a saúde, ele teria retornado até a Índia, onde viveu tranquilo até o dia de sua morte.

O interessante é que Martin descobre esta relação de forma extremamente inusitada. Enquanto estava no Paquistão ele entrou num bar e bebeu uma cerveja paquistanesa denominada "Murree". Questionando o nome da cerveja e, acreditando ser alguma homenagem a um senhor inglês chamado Murree, o dono do bar, um paquistanês cristão, afirma ser uma homenagem à Maria mãe de Jesus. Martin pensou "uma homenagem à Maria mãe de Jesus num país muçulmano?". O dono do bar disse que é porque ela está enterrada no Paquistão. Simples.

Se o leitor assim como Martin (e eu) se pergunta o que Maria está fazendo no Paquistão, a resposta é uma das teses apresentadas por uma especialista consultada por Martin. Após a crucificação e a recuperação física de Jesus, ele e sua mãe vão pela Rota da Seda para a Índia e Maria morre no caminho, sendo sepultada por lá em uma colina. Os ingleses, como bons cristãos, não concebiam a possibilidade de encontrarem o túmulo de Maria e destruíram o local em que ela estaria enterrada para a construção de um forte devido à ótima localização estratégica da colina.

Daí, Martin parte para a obra de Notovitch que em 1887 afirma ter ficado no mosteiro de Henvis Compa em Ladak e que lá ele conheceu o documento "A vida do santo Issa, o melhor dos filhos dos homens". Issa é o nome pelo qual Jesus é conhecido no Oriente.

Depois em 1922 o swami Abhedananda afirmou ter lido e traduzido o mesmo documento.

E é o documento que sustenta a tese que se torna o principal problema.

Este documento nunca mais foi visto.

Martin visita o mosteiro, mas o monge que o atende gentilmente informa que após a ida de sua santidade Dalai Lama para o Tibete, todas as traduções foram interrompidas e não há autorização para que os documentos fechados por cordas sejam abertos até que sua santidade Dalai Lama retorne. Sabe quando ele foi para o Tibete? Há 40/50 anos!!! A filmagem mostra os livros fechados por pequenas cordas. Frustrante.

O documentário ainda apresenta outras questões, como o túmulo de Youz Asouf, o possível tempo de estudo de Jesus com um antigo Shankaracharya, a existência de um documento que menciona o encontro entre o Issa (Jesus) e o rei Satavahana Shalivahana.

Além das dificuldades devido ao tempo decorrido (quase 2000 anos!!) há ainda a dificuldade dos fundamentalistas de todos os lados e as dificuldades políticas entre países em guerra constante. Em alguns momentos o produtor Paul Davids e o autor Edward T. Martin não podem se aproximar de certos locais devido à população que considera o perguntar a cerca do "profeta Jesus" um insulto ao "Santo Alcorão".

Embora levante mais questões do que responda, o documentário lança algumas possibilidades de respostas às questões que incomodam os cristãos. Recomendo.

Para ver o trailer, clique aqui.

sábado, 29 de agosto de 2009

047. Não estamos sós, mas dois perdidos não fazem um achado.

E quando eu penso que só estou, descubro outros que caminham na mesma estrada.

Infelizmente, dois perdidos não fazem um achado.

O Texto é um comentário ao texto de Robson Sampaio Guerra, postado em Peroratio.

Olá prof. Osvaldo e olá Robson,

Embora não conheça o Robson pessoalmente, a leitura do texto foi como olhar-me no espelho, pois a estrutura me é muito semelhante, família Batista tradicional, Embaixador do Rei, líder de jovens, corais e etc.

Foi um bom texto. Uma declaração que representa a realidade de vários (diria até maioria, mas seria presunção minha) seminaristas (prefiro o termo “universitários”) que conheci.

Seria de bom grado que pastores tivessem acesso ao teu texto para, movidos pela compaixão que deveriam expressar e, julgo eu, indispensável ao ofício pastoral, mudar suas práticas em relação aos seminaristas.

Quando falei com o pastor da igreja que freqüentava que pretendia ir para o seminário, (sim, fui pedir autorização para entrar no STBSB) ele disse que não concordava que pessoas sem “chamado” fossem para o seminário, pois lá era um local em que “existiam pessoas que não acreditavam em Jesus” e apenas o “chamado” seria a “âncora” que garantiria a perseverança do “seminarista”.

Creio que é por isso que os seminaristas (e aqui não preciso mais das aspas, pois não são universitários mesmo) são sobrecarregados com “projetos” de evangelização, assistência aos irmãos ausentes, cultos jovens, grupo de diáconos e por aí vai.

As inúmeras atividades são a “âncora” que não permitem que seminaristas leiam os livros das disciplinas. Com muito mais de doze trabalhos, nenhum ser humano tem tempo para ler e pensar sobre obras como “O Método”, “A Cidade Antiga”, “Filosofia da Ciência”, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” entre outras que ajudam no processo de desconstrução necessária para a dessacralização dos conteúdos.

Creio que a igreja precisa passar por uma reforma pedagógica e mudar do Educare para o Educere. Muito difícil de acontecer. Mas não vejo ainda outra solução.

Impedir que as pessoas tenham acesso ao conhecimento é criminoso e muitos pastores (mais uma vez desejo dizer todos) são culpados. Eles enxergam a vida religiosa do indivíduo (embora que até a visualização da pessoa como indivíduo já seja alvo de controvérsias) como parada e por isso a âncora é necessária. Esta posição parece muito com a idéia de posse e, portanto, dogmatismo.

Escreveria sobre “levantar âncora!”, mas chega de termos náuticos.

Se devo me afastar de locais em que estejam pessoas que não acreditam em Jesus (seja lá qual Jesus que o pastor se referiu) então não vou mais ao mercado, à padaria, à universidade, à farmácia e nem à igreja! E o diálogo com as Ciências Humanas? Coisa do demônio...

Abraço,

Harlyson Lopes

segunda-feira, 20 de julho de 2009

004. Da triste realidade

Um dia desses estava a conversar com um membro de uma igreja batista. Ele, ela na verdade, explicava como havia gostado da mensagem de um pastor num culto de quinta-feira. Disse que a mensagem foi maravilhosa e que ficaria ouvindo-o por muito mais tempo. "Foi uma aula!"-exclamou.

Perguntei qual foi o assunto principal. "O que fazer quando Deus fica em silêncio." foi a resposta. A mensagem do pastor foi baseada naquelas folhas em branco entre o A.T. e o N.T. e ela não fazia ideia que qual era a conclusão dele acerca daquelas páginas.

Pensei em conversar a cerca dessas páginas em branco, mas a avisei de que minhas palavras não seriam maravilhosas como as daquele pastor de quinta-feira. Ela respondeu com uma frase que resume a realidade religiosa atual:

"Se for para me tirar disto que eu aprendi ontem e que fez bem à minha alma, eu não quero. Seja anátema."

Os olhos estão fechados. Os ouvidos estão tapados. Os dentes estão cerrados. Como pode haver diálogo religioso assim?

Então é aqui?

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